Provavelmente, tudo não tinha passado de uma miragem deslumbrante mas, ainda assim, miragem, no deserto da vida dela. Depois daquele almoço, e apesar de Zé Costa se ter despedido com até breves, daqui por dias volto para trazer à prima os papéis para as termas, o certo é que nunca mais tinha dado sinal de vida.
Nos dias que se seguiram, Antónia andou num alvoroço, sempre à espera do toque do telefone ou da campainha da porta. Vestia-se logo de manhã, experimentava um vestido e depois outro, a ver qual lhe ficava melhor, punha um pouco de baton nos lábios e rouge nas faces, para estar bonita se ele aparecesse. E até a tarde que passou no cabeleireiro, para pintar o cabelo, foi um desassossego, sempre a pensar que o primo batia à porta e ela não estava para o atender.
Quem se desfez em espantos de a ver assim bem disposta, com saúde e alegria, foi a empregada: «Como está diferente e muito melhor, D. Antónia! Como gosto de a ver assim e cheia de vida, D. Antónia! Parece um milagre, D. Antónia!». E ela sorria apenas, imaginando o espanto maior que a empregada teria no dia em que descobrisse a existência do primo e lhe comunicasse o próximo casamento.
Casamento?!... Derradeiro sonho antes do sono eterno da morte, um último clarão antes da escuridão definitiva. Afinal, os dias tinham morrido, uns a seguir aos outros, e as semanas caíram, uma a uma, no calendário. De Zé Costa, nada. Nem notícias nem lembranças, como se costuma dizer. D. Antónia puxou o lenço e assoou com ruído as lágrimas que já nem sabiam o caminho dos olhos e teimavam em pingar das narinas. Doíam-lhe os braços, as pernas, as costas, estalava-lhe a cabeça. Ainda por cima não tinha conseguido consulta no médico dos ossos, tinha sido aquela chatice do telefone, sempre impedido. Depois, quando conseguiu ligação, o médico já não estava, tinha ido para um congresso no estrangeiro. Pois era, se a nora tivesse tido a delicadeza de passar pelo consultório - que até lhe ficava em caminho para a loja - ela não tinha ficado sem consulta e não estava agora tão cheia de dores... Parva era ela que ainda alimentava aquelas ideias de amizade com a nora. Tola! Até tinha pensado em oferecer-lhe a jóia antiga, aquela das pedras vermelhas. Era o que faltava, dar-lhe uma coisa daquelas, de tanto valor e estimação.
E a filha? Era filha, é verdade, sempre tinha tendência a desculpá-la, mas não podia fechar por completo os olhos. Se ela fosse uma boa filha, tinha vindo vê-la quando lhe telefonou a dizer que estava com uma daquelas crises de reumático de nem se poder mexer. Mas a filha mal a tinha escutado, quase que nem a deixou falar, que tinha o mais pequeno na banheira e o refogado ao lume, via-se mesmo que estava a despachar a mãe ao telefone. Ah, a sorte é que ela já os conhecia a todos de ginjeira, eram uns egoístas. Mas ela nunca mais os iria incomodar, decidira que já não precisava de mais ninguém. Daí para a frente, deixar-se-ia ficar em casa, sozinha, e morreria mirrada em dores e em comprimidos. Deus dar-lhe-ia uma morte breve, era a única coisa que agora desejava na vida: Morrer, morrer, estava decidido!
Mas a lembrança da tarde soalheira no terreno de Zé Costa, a casa com varanda virada ao mar, o murmúrio calmo das ondas, a voz do primo, forte e abrigante como um porto, teimavam em insinuar-se nos pensamentos de D. Antónia como uma maré que cresce e abriam-lhe brechas na fúnebre determinação. E se lhe tivesse acontecido alguma coisa a ele? Pois, afinal, não era estranho ele nunca mais ter dado palavra? Mas, que lhe podia ter acontecido? Só se fosse um acidente e ele estivesse nalgum hospital?!... E Antónia, ao invés de estremecer com esta ideia sinistra, mau grado, sentiu-se alegrar. E imaginou-se, carinhosa enfermeira, ao lado do primo, a mão dela na mão dele, e ele a contar-lhe como se sentira triste no meio de todas as tristezas do hospital, por imaginar a preocupação dela com a ausência de notícias dele. Oh, se assim fosse... Agora que experimentara aquele gosto renovado da vida após o reencontro com Zé Costa, morrer não era opção fácil. E ela ali estava, presa nas suas interrogações, às voltas com o dilema a que tudo se resumira: Viver ou morrer, eis a questão!
O telefone tocou e D. Antónia nem se mexeu. Deixou-se ficar a ouvir o trim compassado e repetido, as lágrimas secas, o pensamento no vácuo. O telefone calou-se. Depois voltou a tocar, insistente. Afastou o xaile que lhe tapava as pernas, levantou-se, levantou o auscultador.
«Está?»
«Antónia? Sou eu, O Zé Costa.»
Os pensamentos rodopiaram-lhe de tão rápido que ele falou. De tão rápido como tudo contou: que teve de ir de urgência à Alemanha, que o filho lhe tinha telefonado numa noite e que ele tinha embarcado no avião no dia seguinte, que nem teve tempo de telefonar. que foi tudo por causa de uma questão urgente da venda de uma casa comercial que tinha lá na Alemanha, que, enquanto lá esteve, se lembrou de lhe telefonar, mas tinha-se esquecido do número em Portugal. E que, agora, estava ali, no café em frente, e, se a prima Antónia não se importasse, tocava-lhe à porta para verem aquela questão das termas, pois estava-se a fazer tarde para a inscrição.
A campainha da porta soou e Antónia abriu.
«Dá-me licença?»
Tinha o mesmo sorriso bonacheirão e satisfeito do dia do almoço. A mesma voz reconfortante. Talvez ligeiramente inquieta. Como, inquieta, parecia uma mão escondida atrás das costas.
«Dá-me licença?», voltou a perguntar, indeciso, apoiando-se ora numa perna ora noutra.
Ela sorriu com curiosidade e ele retirou a mão de trás das costas e apresentou-lhe um raminho orvalhado de violetas.
«Flores..., se a prima me dá licença e não leva a mal.» E logo, corado como um adolescente, os olhos duas estrelas ternas e brilhantes:
«Flores... Para ti, Antónia.»
F I M
anamar - 1989
Este conto faz parte de uma colectânea premiada com uma Menção Honrosa na IV edição (2002) do Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, promovido pela Câmara Municipal de Santiago do Cacém.